um campo que já não tinha flores

eu dormia,
garanto-te, dormia,
quando o grito da noite me chamou,

e não soube,
então, não o sabia
que era tua a voz que me acordou.

e ainda
o dia não rompera
já a névoa cobria a madrugada

e’eu sabia,
na noite à tua espera,
que já não voltarias, minha amada.

e eu que
não sonhava por ter medo
que doesse, até não doer mais

descobri
acordado esse segredo,
o caminho secreto dos finais:

que primeiro
se apagam os sonhos
e depois se ausentam os amores

e a noite
secou-me até aos olhos
como um campo que já não tinha flores.

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na tua espera

consomem-se-me as horas, meu amor
na tua espera
e lento verto o tempo em duas taças

esperava-te e demoras, meu amor
e tão severa
me cresce a ausência: o tempo passa

que farás tu agora, meu amor
e quem me dera
abrir-te sem perguntas a vidraça

escancarar-te a porta, meu amor
porque supera
o ver-te num segundo a espera baça

mas há só frio lá fora, meu amor,
e uma cratera
que no meu peito a pouco e pouco grassa

e a noite vai-se embora, meu amor
e dilacera
meu corpo frio que o dia despedaça

esvais-te na demora, meu amor
e a quimera
desfaz-se, noite a noite, em fumaça…

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catarse

escrevo hoje por catarse.
por necessidade bruta
da palavra, substituta,
que me distraia de amar-te.

escrevo hoje como sempre
nestes gritos vãos e mudos
que se perdem frios e surdos
sem saírem do meu ventre.

escrevo hoje porque apenas
a palavra me liberta
quando o coração aperta
e a memória me gangrena.

escrevo hoje do lugar
fundo onde guardo as dores.
para que, sem o supores,
me liberte p’ra te amar.

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Vem

não, não sou um barco errante
buscando um porto de abrigo
e o sorriso dos teus olhos
não é um farol na noite

nem serei um viajante
que de algo ande fugido
procurando nos teus braços
um lugar onde repouse

se te busco a companhia
se te procuro o olhar
se te olhar com ternura
ou se em sonhos te beijar

não será por seres praia
em que eu queira naufragar
mas para ser rio comigo
ir juntos até ao mar

não sou de fazer queixumes
sobre o que tenho ou não tenho
nem o que sou se resume
a de onde vou ou venho

mas mesmo sem ter desejo
de com quem os passos some
abro os meus lábios num beijo
o que me sai é o teu nome

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Impura

Impura:
para sempre serás impura
tu que me mentiste
tu que me feriste
para sempre impura.

Não esqueço
por anos que viva não esqueço
a fria traição dos teus beijos
queimando nos meus desejos
o ácido da amargura,
para sempre impura.

Juraste.
Mil vezes em falso juraste
e partiste tão cedo chegaste
tu falsa que nunca me amaste
e quebraste a mais sagrada jura:
tu, mulher impura
para sempre impura.

Convoco
os demónios da noite infinita
que velam a minha desdita
que à noite me guardam o sono:

Que maldito seja o teu nome
tu que me deixaste
tu que me deitaste
veneno onde eu queria ternura.

Que vivas no medo e na fome
tu que me mentiste
tu que me feriste
e manchaste a mais doce das juras.

Que sejas para sempre impura,
tu, mulher impura,
para sempre impura.

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pluie

chove num sítio dentro de mim.
num sítio que insisto em achar que é teu.
num sítio perdido, rasgado, ferido.
que guardo escondido. que nunca foi meu.

chove num sítio no fundo de mim.
num sítio guardado de olhares e censuras.
num sítio esquecido, deixado ao olvido.
mas que sempre foi a essência do eu.

chove num sítio algures em mim.
no sítio afinal que me marca e define.
e por mais que tente, só ele não mente.
está exposto sempre. e hoje, choveu.

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O Amor Vai-nos Rasgar

Quando a rotina dói
e as ambições só descem,
o ressentimento rói
e as emoções não crescem.
E mudamos de rumos
nossas estradas divergem.

Amor, o amor vai-nos rasgar, de novo.
Amor, o amor vai-nos rasgar, de novo.

Porquê o gelo do quarto,
as tuas costas voltadas?
Escolho o momento errado,
o respeito é já nada?
E no entanto a atracção
ainda nos tem ligados.

Amor, o amor vai-nos rasgar, de novo.
Amor, o amor vai-nos rasgar, de novo.

E tu gritas na noite?
Expôes os meus mil defeitos…
Vem-me um gosto à boca
que sabe a desespero.
Como é que algo tão bom
se quebrou, sem apelo?

Amor, o amor vai-nos rasgar, de novo
Amor, o amor vai-nos rasgar, de novo
Amor, o amor vai-nos rasgar, de novo…

Título Original: Love Will Tear Us Apart

Autor:
Ian Curtis, Agosto/Setembro 1979

Tradução para português:
Julião Duartenn, 3 de Junho, 2011

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arco tangente

num momento, eras tu.
o rubor da face,
os olhos de luz,
esse sorriso de quem seduz

por segundos, eras tu,
a pele das mãos,
a cor do verniz.
o ar de quem quer mas nunca diz.

eu sei que já não voltas e não quero
viver só de esperar, mas ‘inda espero,
ainda estás aqui,
a memória de ti

e cada noite em que recordo, louco,
os senos e os co-senos do teu corpo
é como se voltasses,
ainda me amasses…

num instante eras tu,
o cabelo em fogo,
o sangue dos lábios,
as mil e uma noites em que

subitamente eras tu
a gruta que pulsa,
o peito que treme,
corpo todo feito boca e grito..,

eu sei que já não voltas e não quero
viver só de esperar, mas ‘inda espero,
ainda estás aqui,
a memória de ti

mas cada noite em que recordo, louco,
os senos e os co-senos do teu corpo
é como se voltasses,
é como se ainda me amasses…

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veleiro

de pé ao leme, tu que já não esperas,
cansada de aguardar que mude o vento.

e eu quieto no convés contando as estrelas,
perdido em qualquer fugaz pensamento.

conta histórias, minha irmã, conta-me histórias,
coisas belas, fugidias, fascinantes,
de lugares e de gentes tão distantes,
dá-me histórias em que perca os meus dias.

de pé, por entre as ondas, tu ao leme,
cansada de buscar um porto vão.

e eu quieto no convés contando as vagas,
perdido no que chamo solidão.

conta histórias, meu amor, conta-me histórias,
dessas praias a que fomos no passado,
e das noites e dos dias a teu lado,
antes deste abismo a que chamamos mar.

e’a pé, no meio da noite, tu ao leme,
cansada de ser mestre e ser piloto.

e eu a pé, no convés, olhando as núvens,
sentido as tuas mãos traçando a rota.

pela costa do que foi e já passou.
pelas praias já desertas de outros tempos.
tu decerto preferias outro rumo,
certamente desejavas outro vento.

mas não fiz mais do que estar neste convés,
como se esse fosse todo o meu destino.

e se agora, finalmente, te grito que o vento volta,
te digo que a maré muda, te juro que iço as velas,
com que ouvidos ouvirás minhas palavras,
com que força tas direi, que o vento as poupe?

eis histórias, minha amada, novas histórias,
de futuros que no mar não sejam espuma,
mas destinos e caminhos e horizontes.

eis histórias, minha amante, de vitórias,
de conquistas arrancadas uma a uma,
vencidas a cada dia, a cada noite.

pois sei, neste convés, de quanta dor
se faz a ventania e a madrugada
e que estrelas seguir, e de que cor
içar minha bandeira, desfraldada.

ergo-me do convés, meu corpo treme,
e manso ao pé de ti pouso as mãos nuas.
não quero ser eu quem empunha o leme
apenas quero as minhas mãos nas tuas.

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instamatic

acordo e saúdo a madrugada
e o meu primeiro olhar é para ti.

e do lugar que é teu neste meu peito
construo a tua imagem a meu lado
parte por parte percorro o teu corpo,
sei-te de memória: estás aqui.

e não existe o dia em que partiste.
e não existe noite nem passado,
estás sempre aqui, sempre ao meu lado,
eu não errei, não há separação.

e ali, por um momento, sou feliz
no instante tão breve do acordar
até que a realidade venha, bruta,
arrancar corações ao meu sonhar.

um dia, ao acordar fecho os olhos.
e talvez o instante seja eterno.

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