de pé ao leme, tu que já não esperas,
cansada de aguardar que mude o vento.
e eu quieto no convés contando as estrelas,
perdido em qualquer fugaz pensamento.
conta histórias, minha irmã, conta-me histórias,
coisas belas, fugidias, fascinantes,
de lugares e de gentes tão distantes,
dá-me histórias em que perca os meus dias.
de pé, por entre as ondas, tu ao leme,
cansada de buscar um porto vão.
e eu quieto no convés contando as vagas,
perdido no que chamo solidão.
conta histórias, meu amor, conta-me histórias,
dessas praias a que fomos no passado,
e das noites e dos dias a teu lado,
antes deste abismo a que chamamos mar.
e’a pé, no meio da noite, tu ao leme,
cansada de ser mestre e ser piloto.
e eu a pé, no convés, olhando as núvens,
sentido as tuas mãos traçando a rota.
pela costa do que foi e já passou.
pelas praias já desertas de outros tempos.
tu decerto preferias outro rumo,
certamente desejavas outro vento.
mas não fiz mais do que estar neste convés,
como se esse fosse todo o meu destino.
e se agora, finalmente, te grito que o vento volta,
te digo que a maré muda, te juro que iço as velas,
com que ouvidos ouvirás minhas palavras,
com que força tas direi, que o vento as poupe?
eis histórias, minha amada, novas histórias,
de futuros que no mar não sejam espuma,
mas destinos e caminhos e horizontes.
eis histórias, minha amante, de vitórias,
de conquistas arrancadas uma a uma,
vencidas a cada dia, a cada noite.
pois sei, neste convés, de quanta dor
se faz a ventania e a madrugada
e que estrelas seguir, e de que cor
içar minha bandeira, desfraldada.
ergo-me do convés, meu corpo treme,
e manso ao pé de ti pouso as mãos nuas.
não quero ser eu quem empunha o leme
apenas quero as minhas mãos nas tuas.